quinta-feira, 31 de julho de 2008

Lembranças.

Da minha infancia, uma das lembranças mais vivas, entre tantas que me povoam a memória é a de minha mãe fazendo macarrão em casa.

Sábado à tarde, a cozinha já no lusco-fusco da São Paulo dos anos 50, sem poluição e sem paranóias, mamãe preparava uma montanha branca de farinha sobre a mesa, abria uma cratera no centro e lá derramava o ouro e prata de tantos ovos...
Olhava fascinada o amálgama que era produzido. Ovo e farinha fazem macarrão? Das maõs elegantes de minha mãe nascia uma extensa toalha de massa, aberta pela competencia daquelas mãos e que se derramava mesa abaixo.

E eu?
Embaixo da mesa observava aquele mistério ser transformado em tiras de "tagliatelle", "fetuccini" e centenas de quadradinhos resultantas das sobras dos cortes perfeitos, destinados a preencher de sabor muitos pratos de sopa...

Nada de máquinas, nada além das mãos daquela mulher forte, que amassva com as mãos, esticava com enorme ( me parecia) rolo aquela massa e a cortava com faca afiada.
Naquele tempo não tínhamos televisão, meu pai lia seus intermináveis livros na sala, mamãe trabalhava lépida na cozinha do apartamento do Brás, ouvindo a Rádio São Paulo...

E eu?
Ficava flanando de lá pra cá, filha única ainda, entre as figuras que me troxeram ao mundo, à vida.

Lembranças que hoje me emocionam e me levam ao dia, muitos anos depois, em outro apartamento, no Rio de Janeiro; papai já se foi, deixou-nos saudades e os livros, mamãe com seus cabelos já grisalhos e eu observando minha filha, embaixo da mesa, roubando pedacinhos de massa que minha mãe fazia...

E eu?
Vejo o ontem , o anteontem e vislumbro o futuro... Sigo feliz.

Madrugada

Boa noite...
Palavras que, no silêncio do mundo, deixam livres os rumores da alma...

Da janela vejo as luzes que brilham encobertas por uma tênue neblina.
A lua, meio escondida, olha a noite seguir seu curso, fingindo que anda pelo céu...
Poucas janelas iluminadas mostram que tenho companheiros de vigília.
O que fazem? O que pensam? O que procuram nessa hora tão tardia?
Ouço um telefone que toca... O som se amplifica na insistência do toque.
Quem teria essa urgência? Silêncio novamente...
O telefone volta a tocar e depois desiste.

Continuo na janela.

A limpeza urbana passa recolhendo os restos do dia anterior, numa rápida algazarra que não perturba esse momento de intervalo entre o ontem e o amanhã...
As nuvens caminham pelo céu seguindo seu eterno passeio, em suas formas mutantes como a vida.

Será absoluto, esse silêncio ? Estará realmente dormindo toda essa cidade?

Meu pensamento, então, caminha pelos hospitais, nessa hora em que bebês costumam fazer sua ruidosa estréia no palco da vida, passa por todos os trabalhadores cujo relógio biológico é ativado pela noite.
O sono lhes é roubado para que o nosso seja mais tranqüilo e seguro.

Uma freada brusca e um palavrão. Breve intervalo na calma aparente.
Alguém grita.. Um pesadelo?
Um filho chega em hora não autorizada e carimba olheiras na face da mãe...

Tudo acontece nessa hora em que julgamos que o mundo para.
O tempo vai passando, meus olhos continuam buscando novas luzes na noite que se descortina do alto dos vinte andares onde estou.

Em breve, o primeiro bem-te-vi vai pousar no prédio em frente, os ônibus voltarão a despejar sua fumaça no ar seco da cidade e os primeiros passantes seguirão rumo ao novo dia, sem imaginar que uma insone observadora segue seus passos que desaparecem na esquina.

Indiferentes, dia e noite se encontram, na eterna cerimônia da troca de guarda.

Um vento frio anuncia que a luz pode chegar a qualquer momento, que eu preciso fechar os olhos e deixar que o sono me abrace, na certeza que tudo está em seu lugar. Logo poderei olhar pela janela e ser grata por mais um dia, pela nova oportunidade com que a vida me presenteou, pôr em prática as resoluções que a noite me sugeriu e poder crescer um pouco mais...

Tudo está em seu devido lugar, as luzes começam a se apagar e fecho meus olhos, enfim repelta da noite, pronta para um novo amanhã...

Bom dia!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Para Voce....

Pleno inverno... e ele me vem como um sussurro e eu desejo que ele se importe e que sonhe com a minha verdade, trazendo de volta a juventude, o calor de sorrisos e sonhos.

Queria que ele se desse conta de que o amei, ainda, e até, demais...
O tempo, como o trem, corre pela vida, não apita na curva, não espera ninguém.
Mas eu me sinto livre para castelos de nuvens... Os planos de inverno se concretizam tão novos, tão velhos...

E ele compreende, percebe o invisível e vem... Uma palavra honesta, uma ilusão consentida, sem rosto, apenas uma voz que murmura em meus cabelos.
Depois da história contada o céu se funde em verdade, o amor continua vivo, presente, até o fim das estações.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O Rio e as cores de Miró.

Desço a Serra das Araras, estrada limpa, rápida, em direção ao Rio de Janeiro....

E chego ao Rio.... Linha vermelha, amarela, sei lá que cor!
Vejo uma cena inusitada. Fim de tarde, de um lado o pôr do sol, de outro uma lua tímida, meio escondida...

Lembro de Miró... dos painéis que deixou no Palácio da UNESCO, em Paris. De um lado o Sol, do outro a Lua... e todas as cores, imagens...

Como Miró, o Rio oferece a quem o vê com olhos puros, uma interpretação peculiar do surrealismo pictórico.
A inquietude da vida, a exuberância e a rebeldia esfuziante expressos em traços fortes, únicos!
As cores primárias, suas preferidas, derramam-se por todos os lados, numa ligação com a fantasia infantil e sua poesia.

O Rio também é assim. Os camelôs, as pipas no ar, os campinhos de futebol de várzea, mesmo as nuvens de medo que pairam sobre o céu.

Cidade Maravilhosa, tão exposta pela mídia, execrada e mal-falada!

O Rio de Janeiro, minha gente, continua lindo! O carioca continua aqui, pelas ruas e calçadas, o cotidiano está aqui, rebelando-se contra os clichês, contra a violência que existe, sim, mas só aqui?
Como um país inteiro pode ver com um olho só? "Não vá ao Rio, cuidado, os tiros"! Mas e no resto do Brasil? Apocalipse? Now? Ou somos nós que alimentamos os monstros?
Tem-se feito mais apologia à violência que à resistência do carioca a essa onda de descaso e desamor...
Fala-se mais da bandidagem e pouco, quase nada, da dona de casa que continua indo à feira, do professor que continua na escola com seus alunos, da gente que continua indo e vindo.
Apropriar-se da cidade para que ela volte a ser do cidadão, apropriar-se da cidade e desapropriar a violência. Não aceitar um "status quo" e não deixá-la ser denegrida, esse é o papel do carioca!

Ele há de recuperar sua cidade, sua liberdade e sua alegria! E mostrar a quem tem essa mentalidade pequena, estreita e "caipira", na pior acepção do termo, que é um povo feliz e orgulhoso do lugar onde vive.

Que o Rio de Janeiro continue lindo!

Não sou carioca de nascimento mas o Rio será sempre a minha terra, a terra que me viu crescer, que me ensinou a amar e a respeitar o outro, na qual nasceram as minhas mais belas frases... meus amores... minhas filhas!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Vôo Rasante (um pesadelo)

Lancei o rosto ao vento,
louco espectro sem nome!
Voava e via, lá embaixo,
sangue, ferro, fogo e fome.

Se empunhei flores e cantos,
quem me seguirá buscando a sorte?
Quem virá, por mim, chorar
quando, do tempo, só restar a morte?

Perguntas sem resposta...

Os olhos saltando das órbitas,
a carne queimada, seu cheiro no ar,
Incandecentes palavras num grito de vida,
Poder! Morte! Fugir! Lutar!

Se houve braços abertos no sonho,
os olhos e os lábios falando de luz
Só o mártir viu verdade,
em berros, com ferros, pregado na cruz!

Não era isso que eu queria...
Gritei pelo dia, no tempo, um imbecil!
E as cores me fugiram pelos dedos,
assim como aquele corpo me fugiu.

Amor, ódio vão passando,
tudo, aos poucos, se esvai...
Nada sou e, nada tendo,
o vento cessa e o rosto cai.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Divagando

Aposentada, voce dedica esse novo tempo a redescobrir o prazer de coisas que não tinha tempo ou vontade de fazer....
Estou uma verdadeira desocupada, não tenho hora para dormir ou acordar.
Vagueio pela Internet, descubro que gosto mais do que pensava, viajo um pouco por esse vasto e, às vezes louco, mundo virtual.
Um site de relacionamentos me trouxe de volta os amigos da faculdade...
São trinta e três anos de recordações... O reencontro é emocionante e descubro sensações antigas mas tão novas...
Tínhamos vinte anos, éramos tão guerreiros e envolvidos com o que aquele tempo nos trazia...
Década de 70, anos duros para todos...
A maioria se perdeu com o tempo, cada qual seguiu seu caminho e depois, num segundo, nos falamos e trocamos fotos de filhos e netos, como se fosse ontem o dia em que estivemos juntos.
As emoções se confundem, as descobertas são muitas...
Muitos, como eu, deixaram a profissão e enveredaram por outros caminhos.
Um é político, outro continua maluco e compõe, tem um boteco, outra sobrevive brava e serena à crueldade de uma doença traiçoeira e há o Guinga, o nosso músico que o mundo saúda como um dos maiores da atualidade... Há os que ainda batalham por uma odontologia que garanta saúde...
Tanta gente que não se reencontra mas aqueles que respondem ao chamado me fazem sentir mais viva, mais capaz de ir em frente e atrelar o carro àquela estrela...
Envelhecemos, temos rugas e muitas histórias vividas. Alguns ainda estão no mesmo lugar. Eu coloquei a mala na cabeça e fui fazer minha história por esse Brasil...mais histórias, mais gente que deixou marcas em meu coração. É tão maravilhosamente estranho e, ao mesmo tempo, reconfortante.
Cada ruga, cada pequena marca é uma página dessa história que não quero apagar.
São as marcas do cotidiano, às vezes duro, sofrido, mas vivido intensamente.
Estou a um passo do que se convenciona chamar de terceira idade... mas o que é primeira ou segunda???
Como definir essas etapas? Apenas pelas marcas físicas? Ou pelos sentimentos e atitudes que as caracterizam?
Para mim não há fronteiras, pois somos hoje o que fizemos ontem.
Não somos um navio com compartimentos estanques mas um novelo que desenrolamos a cada dia...
Que sejamos capazes de mais encontros e reencontros, que não nos deixemos amarrar a clichês...

E hoje quero apenas dizer, com o coração taõ leve..... apenas BOM DIA!!!!

sábado, 12 de julho de 2008

Voce vai se aposentar

Falta um mês, uma semana...falta um dia...
Aos poucos você vai se desvinculando das coisas, da rotina, arruma gavetas e joga fora uma montanha de papéis gurdados ao longo dos anos.
Aquele recado importante, tão importante um dia, agora não passa de um papel escondido no fundo da gaveta.
Aí você começa a juntar numa caixa as coisas que vai levar, aquelas que foi acumulando durante tanto tempo, uma caixinha para guardar cartões, um porta-lápis, um bastão de incenso para os dias mais "pesados", tudo aquilo que foi espalhando à sua volta na tentativa de humanizar o local de trabalho... mentira, é a mania que a gente tem de fazer da mesa de trabalho a extensão de casa!
O dia vai passando e você já não tem tarefas ou prazos a cumprir.
Lê uma revista, acaba jogando paciência, busca novos sites na Internet e o tempo, na verdade, parece que não passa!
De repente você olha à sua volta e percebe que tudo continua, a "máquina" não parou, cada um com seus afazeres e você se descobre solitária, sem nada para fazer, a não ser deixar o tempo passar. Tudo limpo, arrumado, a mesa e as gavetas tão em ordem como nunca estiveram em dez anos...
Limpa os arquivos do computador ( bobagem, ele vai formatado novamente quando você sair) mas vai e deleta daqui, apaga dali, tudo aquilo que foi organizado em pastas especiais, continua recebendo propostas, releases, informações e os redireciona a quem de direitoe, então, percebe que não faz mais parte do grupo mas, apesar disso, tudo continua funcionando regularmente.
Você se pergunta... o que vou fazer amanhã? Não tenho horário a cumprir, cartão de ponto devolvido, appéis assinados e tudo acaba. Quase parece um divórcio amigável...
Acaba mesmo? Lá dentro uma dorzinha... será saudade?... mas você não vivia dizendo que não via a hora???
Na verdade, a tal dorzinha é aquelavoz que diz para você parar e lembrar de tudo que deixou de lado, dos projetos e sonhos adormacidos sob as jornadas de oito, dez, às vezes mais, horas de trbalho.
Isso é muito bom! Você descobre que há vida além desses muros, que seu trabalho é apenas parte da sua vida e que ela está apenas por recomeçar!
Revisitar os antigos sonhos, pôr em prática aqueles que você descobruiu que podia realizar se tivesse tempo disponível... e agoar você tem.
Ninguém é insubstituível. Nada para, só por que você paruo...
O mercado de trabalho te recebe de braços abertos mas não derrama uma lágrima quando você se retira. Há outros tão ou muito mais talentosos que aguardam sua vez de brilhar... Pois que brilhem!
De alguma forma você deixará uma marca... uma lembrança na memória de alguém, e iso debve te bastar.
Agora é hora de atrelar o carro àquela estrela que sempre pareceu tão distante.
Agora é horade descobrir e percorrer o novo caminho.