domingo, 15 de maio de 2011

Hoje

Um domingo esquisito. O céu abre e fecha as comportas sem saber o que faz, eu penso.
Decida-se! Ou chove... ou faz sol!
A máquina do tempo, do clima, da vida, anda meio fora do ritmo. Tudo se confunde, dia e noite não fazem muito sentido.
Apenas os intervalos entre o ontem e o amanhã.
Se houver amanhã...
Rio e lembro de uma antiga professora que, nos meus catorze anos leu e disse: "Discípula de Schopenhauer"!
E fui descobrir quem era aquele... E não parei mais de tentar descobrir.
Talvez essa minha busca, um dia, tenha fim. E o que vou encontrar?
Hoje não sei. Amanhã, talvez?

Sei lá...

Há muito que não vinha aqui.
Talvez só eu mesma pense em vir aqui...
E venho, nem sei porque. Antes tudo tinha uma razão de ser, até eu!
Hoje apenas sinto-me um instrumento para a sobrevivencia de duas vidas às quais não dei a luz.
São meus pequenos faróis, que iluminam uma estrada escura, tão sombria e triste...
Preciso ser forte, preciso voltar a mim mesma!
Sou, na melhor das hipóteses, tudo o que elas tem...
Preciso ser alguém!
Preciso SER para elas!
Preciso!

terça-feira, 16 de março de 2010

De novo a noite....

Noite... sempre ela, a companheira, a amiga fiel e constante, sempre pronta a receber o peso do dia que se vai.
Noite, tão cheia de mistérios e perguntas...
Noite calma, de luzes mortas e cores difusas.
A noite fala a linguagem dos fantasmas, vampiros e dos vagabundos, disse uma vez um cronista querido...
Eles se trombam e sequer percebem que partilham o mesmo espaço, a mesma fome de respostas e passam indiferentes.
Às vezes penso que o dia poderia ser mais curto que as doze horas em que se arrasta...
A noite é tão lépida, fresca e bela!
Noite como a de hoje, em que coloco meus devaneios à mostra, em que desnudo minha alma inquieta. Alguém a perceberá? Alguém fará eco aos meus pensamentos?

quinta-feira, 4 de março de 2010

Menos uma estrela no céu da minha música

Morre Johnny Alf.
Músico brilhante, pianista e compositor de peças de dificil execução e interpretação.
Um dos músicos que certamente colaborou com o nascimento da BossaNova.
Rede Globo anuncia sua morte e o compara a Frank Sinatra. Discordo.
Johnny Alf foi, talvez ,um dos compositores que mais primou por um trabalho de harmonias delicadas e de sonoridade ímpar. Eu o comparo a Cole Porter.
Em tempos de absoluta falta de inspiração, da banalização da música e da valorização do "rebolation", fica a marca de um grande músico, como poucos que o Brasil já viu.
Perde o país, perde essa geração de sucessos instantaneos veiculados na rede mundial de computadores.

"Ah... se a juventude que esa brisa canta, ficasse aqui comigo mais um pouco"....

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Só divagando

Queria escrever sobre a vida mas só aprendi a viver...
Queria escrever sobre gente mas só as quis conhecer...
Queria chorar de tristeza mas só consegui esquecer...
Queria ser indiferente mas só consegui parecer....

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Abrindo a cortina

Choveu, choveu na minha vida um bom tempo....
E agora posso abrir a cortina, abrir a janela e respirar.
Não que não goste de chuva... O ruído embala o sono.
Só que, na chuva, o olhar fica tentando perceber o que vem por entre os pingos e, às vezes, não é bom tentar perceber um cenário turvo.
Engraçado.... mesmo com a chuva caindo, hoje eu vi.
Não foi voltar no tempo, não foi lembrar. Foi vislumbrar uma história que não teve fim.

A gente se perde de fatos, de pessoas.
Talvez nem se perca mas tem medo de encarar o verdadeiro sentido do que aconteceu.

E o que vem depois?

Até porque, voce pode ser apenas uma lembrança e nada mais que isso.
Isso voce só vai saber se, realmente, quiser encarar a história e aceitar o que vier desse confronto.
Seja para te fazer feliz ou sofrer. Mesmo se for pra sofrer, que seja!
A dor também mostra que voce está vivo.
Tudo andou adormecido, tudo andou confuso.
Quem sabe se não é o momento de voce fazer alguma coisa?
Quem sabe se passa por cima de pudores, tabus e preconceitos?
E voce achava que não os tinha....
Vá em frente, siga seu coração, sigo o caminho que não teve coragem de trilhar antes.
Não espere nada além do que te possa ser dado. Sem expectativas.
E aquilo que voce receber, guarde bem no fundo do seu baú da vida sem mágoa, mas com a profunda gratidão pela oportunidade de ter feito nova tentativa.

No espelho

O que voce vê?
Só aquilo que o espelho reflete ou vai mais fundo? Procura por voce mesmo por trás da imagem que ele reflete?
Porque voce sabe que essa imagem não é seu verdadeiro eu....
Aliás, a gente só pode se encarar de frente, na real, se olhar pra dentro...
Pra dentro da alma, pra dentro das suas verdades mais escondidas, nunca confessas mas sempre ali, presentes, para te lembrar que voce existe.

Hoje me encarei de novo e descobri que estou mais viva que nunca, pronta novamente para o que vier...
Que venha este novo ano, que venham as surpresas que a vida me trouxer.
Que venham as pessoas, que venham com seus sorrisos e suas dores, mas que nunca, nunca deixem de vir.
Preparados para mais um ato, somos todos protagonistas das nossas histórias que se misturam se separam e voltam a se fundir.
Que venha o hoje pois, em cada segundo, se esconde o mistério do futuro.
Quie venha o amanhã pois, a cada segundo se prepara o próximo degrau a ser galgado.
E eu quero a mais alta escadaria que puder construir.

Memória

E, de repente, me deparo com alguém que fez parte de uma fase da minha vida. Fez não, ainda faz...
Me senti madura e ainda jovem, aquela tonta que não fez nada por cautela e que voltaria atrás agora, imediatamente. Ou não voltaria, apenas daria um novo começo a uma história.
O mesmo sorriso, o mesmo humor cortante e franco, quase o mesmo.
Quase, porque amadurecemos, porque sofremos mas não perdemos o costume de viver...
Memória afetiva, memória visual, memória dos sentidos, tudo voltou à tona como se fosse o ontem, um passo bem perto...uma pegada que ainda se pode cobrir com os pés...
Que se dane a inteligencia racional, que se dane a etiqueta, o bom tom...
Sem mesmo saber se a memória do outro tem a mesma intensidade da minha, me exponho à emoção, me exponho a tudo que esses momentos me trouxeram.
E, certamente, não pretendo deixar de saber o que virá depois.
Não sou saudosista, não quero voltar no tempo. Quero fazer das memórias um novo caminho, seja ele qual for.
Mexeu lá no fundo desta minha alma inquieta.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Terceira idade......

Tá chegando uma data fora do sério!!!!
Vou fazer sessentinha e, o que mais me preocupa é que passei pelos 30, 40, 50, sem sentir diferença.....
É claro que o físico, às vezes, se ressente mas a cabeça continua a mesma... será que nunca cresci ?
Será que a cabeça sempre foi tão madura que não me fizeram diferença as décadas que passaram?
Sei lá... Sou avó e brinco de boneca, estou aposentada mas não sei fazer tricô...
Só sei que quero mais.
Terceira idade?
Mas qual foi a primeira? Cadê a segunda, se eu sempre fui assim????
Tô caducando ou o que????
Quer saber?
Eu tô é FELIZ !!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sem título

Tenho andado longe daqui... Cabeça cheia mas as idéias não tomam forma.
Me caiu no colo um blogueiro maluco, amigo do Xico Sá!
Descreveu-se tão bem.... tantos anos bem vividos, mal dormidos e bem trepados!!!!
Um bebum confesso, de carteirinha, e uma sensibilidade para, com sua heroína de novela, mostrar que há um pouquinho da Aline em cada uma de nós......... embora a maioria o negue!
Os homens estão mudando, se desnudando em sua sensibilidade.
Quem sabe um dia não nos entendamos séria e verdadeiramente!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Chuva forte

Chove... Chuva forte, água que faz a imagem da janela parecer um espelho d'água.
O dia caminhou lentamente para isso. Dia quente, abafado, sol escondido e uma garoa enjoada...
Enjoada como eu, alguém me disse...
Hora de mudar? Ou só a insatisfação de alguém?
Continua chovendo... a água lavando as ruas, fazendo as pessoas caminharem apressadas, escondidas sob seus gurada-chuvas de tantas cores, única nota que destoa do branco que a chuva traz.
A noite já chegou, o horário de verão perdeu sua força, hoje...
Noite para ficar quieta, pensando, um livro ou música para acalmar a inquietação que não me deixa.
Ando querendo mais.... não sei o que mas querendo.
Uma sucessão de palavras quase sem sentido, que refletem um momento de pura interrogação em minha alma.
A chuva, essa leve pra longe as perguntas... Quero respostas.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sem título

Prosseguem os devaneios.... uma busca de não sei o que...
Saudade do que foi ou do que ainda não veio?
Noite... luz nas ruas vazias de gente.
A TV ligada desfila seu circo de imagens e cores, sem que eu a focalize.
O olhar vai muito além , sabe Deus pra onde...
Uma certeza, uma dúvida.
Ler Clarice Lispector me fez querer algo mais..
Nem sei o que me vai na alma...
Uma sensação de vazio a preenche.
Tentar buscar no esquecimento do sono, a busca que não tem rumo certo.
Apago a luz mas não a memória.
Amanhã é outro dia...
Uma sucessão de dias que não têm fim.
Uma palavra, ainda não dita, poderá acalmar a inquietude desta alma?

domingo, 2 de novembro de 2008

E a vida continua...

Num domingo qualquer, qualquer hora... diz a canção, a vida continua, não é?

Às vezes podemos interferir, às vezes não, afinal...
E se eu quiser fugir? e se eu quiser ficar?
Pensamentos dispersos, nada e tudo fazem sentido.
Na verdade, apenas o que queremos faz sentido, só não sabemos como alcançar, em determinadas situações.
Estou aqui, à procura de uma razão para esse devaneio e ainda penso como oCazuza:
"Até nas coisas mais banais/Pra mim é tudo ou nunca mais"
Penso, então, que ainda busco esse tudo... Virá ou não?

Quero, mesmo, uma ideologia pra viver?
Seguir o curso dos dias e esperar.
Talvez o tempo, que não para, possa me dizer...

domingo, 24 de agosto de 2008

Decepções... que não as tem?

Não consigo pensar em algo mais cruel que a mentira.
Que perfil se pode traçar de alguém que mente? Não aquela mentira da criança que esconde o boletim, não a mentira que contamos à vizinha fofoqueira... certos de que será reproduzida mas que não atingirá ninguém...

A mentira que fere, que é dita sob a máscara da verdade, do carinho e do amor...
Essa é o retrato da crueldade!
Pensar que acreditamos e nos sentimos felizes por sermos queridos...
Pensar que aquele alguém é doce, sincero e leal...
Depois descobrir apenas frases feitas, copiadas do almanaque... mas tão bem colocadas.
A doçura das palavras encobrindo uma alma pobre, indigente.

Como diziam antigamente, a mentira tem pernas curtas e anda devagar...
Nem sequer é necessário ir atrás, ela surge à sua frente, mais depressa do que imagina.

Peguei um mentiroso hoje, por mero acaso, como costuma acontecer.
Era um amigo, tão amigo, pensava eu.
Pego de surpresa, apenas o silêncio e a retirada imediata, inglória.
Uma vitória? Apenas o sabor amargo de uma descoberta...
Fica a lição.

Embora decepcionada ainda acredito no ser humano, na capacidade de se doar, de compartilhar e sonhar.

Num mundo em que há desamor, frieza e medo vou para um oásis, daqui a pouco, vou dividir poesias com pessoas que abraçam e acolhem o outro sem perguntas, sem cobranças.

Tudo com perfume de alfazema e erva-doce...

( para Poeta e Lua)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O que encanta

Ontem, procurando alguma coisa decente ( ah! doce ilusão) na TV aberta, dou de cara com um bate-papo com a Adélia Prado....

Que figura doce e forte! Cabelos brancos, o rosto marcado por finas rugas e olhos tão vivos!
Que discurso cativante, que raciocínio brilhante!

De tudo que ouvi, encantada, ficou-me na memória o que disse sobre aquilo que encanta, aquilo que nos deve mover pela vida...
Nada de heróis, "já imaginou a Joana D'Arc? Devia ser muito chato viver com armadura e depois morrer na fogueira"...

Os heróis, geralmente, ganham essa dimensão após a morte. E qual é a graça disso, afinal?

O que deve nos encantar é o cotidiano, são as pequenas coisas do dia-a-dia que nos mostram a beleza de estarmos vivos.
É do cotidiano que precisamos extrair o encanto, a beleza, o perfume e a cor de cada momento!
Fiquei matutando, aquilo realmente mexeu comigo.

Hoje pela manhã, achei lindo o canto do operário que estava limpando a minha janela, pendurado numa cadeirinha, no vigésimo andar do prédio...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Uma história

Quem a vê, calma e silenciosa, às vezes cantarolando, dificilmente saberá o que lhe vai na alma...

Ela lê, escreve ou trabalha em casa, sai e fala com os outros, sorri e se fecha em seu mundo.

Quem a vê rindo alto, de uma piada qualquer, não imagina o que lhe vai pelo coração, esse cofre tão bem trancado...

A vida a fez assim, uma mulher que pediu tanto e recebeu tão pouco!
Não que tenha sido uma mera espectadora, pelo contrário! Foi e é protagonista de sua história.
Talvez por ter tanto amor guardado , tão disponível a distribuí-lo generosamente, sempre teve esse amor tirado de si, sem retorno.

Não que já se tenha ouvido queixas, ela vive, ama e, se sofre, só ela sabe.
Seu sorriso generoso, sua palavra amiga, de conforto, de solidariedade, sempre estão prontos para quem deles necessita.

A vida a fez assim, uma rocha no leito do rio, forjada pelo entendimento do ser humano, a despeito do seu egoísmo.
Ela construiu, ao seu redor, um jardim, um oásis no qual recebe quem chega, sem perguntas nem cobranças...

Ela, como disse Quintana, não corre atrás das borboletas, apenas cultiva o jardim para que este possa recebê-las...

Quero acreditar que alguém a veja como é, que perceba sua solidão e que se aproxime sem pedir, sem perguntar, que apenas a envolva nos braços e deixe que repouse sobre um coração amoroso...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Terra de Ninguém

Em que terra vivo? Em que tempo vivo?

A cada dia que passa, mais me assusta o rumo que o país vai tomando.
A Justiça se faz cada vez mais lenta e mais incompreensível. As algemas "constrangem" os réus e ferem os Direitos Humanos, segundo o ministro e os juízes do Supremo...
E a sociedade?
Não tem seus direitos feridos, sua integridade ameaçada por essas e outras medidas arbitrárias?

E os pretendentes a cargos públicos? mesmo aqueles que estão em situação de dívida com a sociedade, julgados ou não, esses podem ser eleitos?
Tudo em nome do "in dubio pro reu"?
Como acreditar que não caminhamos para o caos total?
Fico pensando... um ex-governador, ex-candidato à Presidência, cuja atuação tem sido, no mínino risível, o nome sob tantas suspeitas, junto à doce esposinha, ainda aparece na TV falando em nome de Deus?
Que Deus?

A Polícia recebe treinamento para "abordagem segura" de suspeitos... só agora??? mas isso já não deveria fazer parte dos procedimentos iniciais da preparação de um agente da Lei?
Um policial que prende dois bandidos, é baleado por um deles, reage e mata um... morre em conseqüência dos ferimentos e é censurado, mesmo morto, em rede nacional, porque os bandidos tinham 16 anos???

Penso que sou ingênua... ou estou almejando a utopia???

Os direitos dos cidadãos, tolhidos por medidas descabidas, arbitrárias e desnecessárias, políticos que legislam em causa própria, cada vez mais livres e protegidos por imunidades absurdas ao invés de honrarem as promessas e os votos que receberam desse povo faminto de comida e de uma vida mais digna...
Tudo me assusta, tudo me leva a pensar que caminhamos para uma guerra que, quando irromper, não será contida por medidas restritivas...

Paramos para pensar e organizar ou vamos em direção a que?

Vejo apenas os limites de uma terra de ninguém...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Genro

Teoricamente, o genro é aquele cara que surge na vida da gente, só para levar a filha que deixou de ser menina...

Teoricamente, o genro é aquele cara que entra na sua casa e vai se acomodando, tomando conta de espaços tão íntimos e vira tudo do avesso...

Teoricamente, o genro é aquele cara que come todos os salgadinhos que você programou usar amanhã...

Mas aí me surge uma pessoa diferente do clichê...

Menino educado, maneiras até refinadas, inteligente e meio palhaço... ele traz salgadinhos e pergunta de qual eu gosto... Ajuda até a lavar a louça...
Fui me acostumando com sua presença, entendendo que gosta da filha que agora se prepara para nova fase de vida e que respeita o meu modo de viver...

Se o genro apresenta alguns traços de imaturidade, isso é compensado pela capacidade de ouvir, dialogar e aceitar críticas ou sugestões.
Aquele cara que eu acreditava ter vindo para tirar algo que me é tão querido, tão amado a despeito dos desentendimentos do dia-a-dia, veio trazer a presença agitada e curiosa da juventude, passando a fazer parte da minha vida, como se tivesse estado comigo desde há muito...

Esse genro, em especial, é um amigo que veio fazer parte da minha vida.
É um cara que acrescentou uma pedrinha colorida no mosaico que a vida me fez construir e a quem só posso dizer... seja bem vindo!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Lembranças.

Da minha infancia, uma das lembranças mais vivas, entre tantas que me povoam a memória é a de minha mãe fazendo macarrão em casa.

Sábado à tarde, a cozinha já no lusco-fusco da São Paulo dos anos 50, sem poluição e sem paranóias, mamãe preparava uma montanha branca de farinha sobre a mesa, abria uma cratera no centro e lá derramava o ouro e prata de tantos ovos...
Olhava fascinada o amálgama que era produzido. Ovo e farinha fazem macarrão? Das maõs elegantes de minha mãe nascia uma extensa toalha de massa, aberta pela competencia daquelas mãos e que se derramava mesa abaixo.

E eu?
Embaixo da mesa observava aquele mistério ser transformado em tiras de "tagliatelle", "fetuccini" e centenas de quadradinhos resultantas das sobras dos cortes perfeitos, destinados a preencher de sabor muitos pratos de sopa...

Nada de máquinas, nada além das mãos daquela mulher forte, que amassva com as mãos, esticava com enorme ( me parecia) rolo aquela massa e a cortava com faca afiada.
Naquele tempo não tínhamos televisão, meu pai lia seus intermináveis livros na sala, mamãe trabalhava lépida na cozinha do apartamento do Brás, ouvindo a Rádio São Paulo...

E eu?
Ficava flanando de lá pra cá, filha única ainda, entre as figuras que me troxeram ao mundo, à vida.

Lembranças que hoje me emocionam e me levam ao dia, muitos anos depois, em outro apartamento, no Rio de Janeiro; papai já se foi, deixou-nos saudades e os livros, mamãe com seus cabelos já grisalhos e eu observando minha filha, embaixo da mesa, roubando pedacinhos de massa que minha mãe fazia...

E eu?
Vejo o ontem , o anteontem e vislumbro o futuro... Sigo feliz.

Madrugada

Boa noite...
Palavras que, no silêncio do mundo, deixam livres os rumores da alma...

Da janela vejo as luzes que brilham encobertas por uma tênue neblina.
A lua, meio escondida, olha a noite seguir seu curso, fingindo que anda pelo céu...
Poucas janelas iluminadas mostram que tenho companheiros de vigília.
O que fazem? O que pensam? O que procuram nessa hora tão tardia?
Ouço um telefone que toca... O som se amplifica na insistência do toque.
Quem teria essa urgência? Silêncio novamente...
O telefone volta a tocar e depois desiste.

Continuo na janela.

A limpeza urbana passa recolhendo os restos do dia anterior, numa rápida algazarra que não perturba esse momento de intervalo entre o ontem e o amanhã...
As nuvens caminham pelo céu seguindo seu eterno passeio, em suas formas mutantes como a vida.

Será absoluto, esse silêncio ? Estará realmente dormindo toda essa cidade?

Meu pensamento, então, caminha pelos hospitais, nessa hora em que bebês costumam fazer sua ruidosa estréia no palco da vida, passa por todos os trabalhadores cujo relógio biológico é ativado pela noite.
O sono lhes é roubado para que o nosso seja mais tranqüilo e seguro.

Uma freada brusca e um palavrão. Breve intervalo na calma aparente.
Alguém grita.. Um pesadelo?
Um filho chega em hora não autorizada e carimba olheiras na face da mãe...

Tudo acontece nessa hora em que julgamos que o mundo para.
O tempo vai passando, meus olhos continuam buscando novas luzes na noite que se descortina do alto dos vinte andares onde estou.

Em breve, o primeiro bem-te-vi vai pousar no prédio em frente, os ônibus voltarão a despejar sua fumaça no ar seco da cidade e os primeiros passantes seguirão rumo ao novo dia, sem imaginar que uma insone observadora segue seus passos que desaparecem na esquina.

Indiferentes, dia e noite se encontram, na eterna cerimônia da troca de guarda.

Um vento frio anuncia que a luz pode chegar a qualquer momento, que eu preciso fechar os olhos e deixar que o sono me abrace, na certeza que tudo está em seu lugar. Logo poderei olhar pela janela e ser grata por mais um dia, pela nova oportunidade com que a vida me presenteou, pôr em prática as resoluções que a noite me sugeriu e poder crescer um pouco mais...

Tudo está em seu devido lugar, as luzes começam a se apagar e fecho meus olhos, enfim repelta da noite, pronta para um novo amanhã...

Bom dia!